Somos gente de palavra(s)

Pois somos. Somos gente de palavra(s) porque elas nos foram dadas, misturadas com afetos e crenças, por aqueles que de nós cuidaram e nos construíram como pessoas.  Haveremos sempre de agradecer o som do amor das palavras e a sua incitação para a vida, nos dias remotos da infância. As palavras são, desde sempre, ligação, compromisso, reconhecimento, lealdade e promessa.

Somos gente de palavra(s) e ação, que a palavra se quer em movimento, pronta para alcançar uma missão e um propósito. Em todos os tempos e em todo o mundo, as palavras cimentaram a vida, procuraram-lhe o sentido, apalparam o terreno e a sua fertilidade, mesmo na ausência de água ou adubo generoso. E soubemos inventar outras regas, condição para sementeiras necessárias. E fizemos o pão para a mesa e a festa para o coração e o futuro. E acarinhámos um dicionário comum, com palavras corajosas: liberdade, direitos, democracia, igualdade. E pusemo-las em lugar seguro, prontas a serem usadas e sobretudo, concretizadas.

E agora? Atordoados, confinados à geografia da nossa casa, face a um inimigo sem rosto, paralisámos, num primeiro momento, interrogando o presente. Durou pouco esta letargia, de gente com medo. Cedo nos organizámos, reinventando outras formas e condições, na escola, em casa, na cultura, nos serviços. Apropriámo-nos das tecnologias, do longe fizemos perto, aprendemos, inovámos e lutámos contra o confinamento. E inundámos os dias de écrans e palavras, batemos palmas para os da linha da frente, cantámos o Grândola Vila Morena à janela, espantámo-nos com o poder de um clic à distância, inebriados num mundo (quase) maravilhoso. Talvez nos tenhamos até excedido num upgrade de redes de comunicação, funcionais, mas incapazes de substituir o calor de um abraço, o toque da pele morna, o riso da presença, em corpo inteiro.

E porque somos gente de palavra(s) comprometemo-nos connosco e com os outros, cumprindo com sentido cívico os nossos deveres. Aprendemos o sentido de tanta coisa que dávamos como adquirido: a importância da escola como espaço de equidade para muitos, os mais pobres e desfavorecidos. Vimos como tantas crianças permanecem invisíveis e desprovidas dos seus direitos, condição habitualmente ignorada. Vimos a imensidão dos lares e a quantidade dos mais velhos que neles passam os dias, sem fim à vista. Sentimos a saudade dos nossos, os de casa e amigos, e tomámos o peso à importância dos afetos, na nossa vida. Inquerimo-nos sobre o essencial. Admirámo-nos com a quantidade de cientistas e do seu esforço para nos elucidar e resolver o futuro, aqui e em cooperação com outros países. Apreciámos a implicação de grupos da sociedade civil, empresas, grupos de voluntários, que num esforço de fazer face ao futuro, começaram a preparar outro presente. E de como na alta costura se passou a fazer máscaras. E como aprendemos a fazer desinfetante. E viseiras. E zaragatoas. E ventiladores.

Somos gente de palavras(s). E de convicção e decisão, sem falsas esperanças ou dogmas breves. Não vai ficar tudo bem, mas pode ficar tudo muito melhor, se as palavras adotadas forem mais que um exercício de retórica. Forem ação, compromisso e luta pelo presente e o futuro.  No respeito por cada um de nós e por todos. Como cidadãos de uma comunidade e do mundo, neste novo tempo de pandemia, que está seguramente para continuar. Vai depender de nós não lhe dar tréguas. E como sempre, ninguém poderá ficar para trás.

Manuela Matos – 4 de maio 2020

Palavras certeiras e números precisos

Os dias estão sombrios, tristes e sozinhos, mesmo que os raios de sol tentem desviar algumas nuvens do seu caminho. E esta é a questão de sempre, agir, andar, mexer. Tudo aquilo que pressupõe o caminho para algum lugar.

Vejo-me a caminhar por um carreiro ladeado por urzes e giestas. A noite está a declinar. Não tarda a chegada dos pirilampos para criar riscos de luz intermitente no breu nocturno. Dir-se-ia que vou por experiência passada a algum lugar. Que seja de preferência mágico, de preferência inesperado.

Não resta dúvida que a comunicação humana, a troca social de bens simbólicos, é esse elixir que nos define e nos constrói. Que nos dá ânimo. Assim pensa aquela imagem projectada que vislumbro de costas, colocando um pé à frente do outro, como se tacteasse a superfície engelhada da terra. Como o rosto ou as mãos dos mais velhos. Marcas que a vida esculpiu e que sol tisnou, tal como acontece na natureza.

Falta à figura caminhante um instrumento, um código que não sirva apenas para sinalizar um percurso, mas que seja também o cálice ou o ventre que prenhe transmite a herança, que explosivo irradia pelo universo saberes passados, conhecimentos presentes, ciências futuras. Quando a gravidade ou o cansaço o tornaram mais chão, o viandante sentou-se encostado a uma árvore, habitada por aves diurnas. 

Quando finalmente o sol despontou e abriu um clarão na linha do horizonte, a passarada entoou uma cantata. Estavam vivas as aves, assim como a figura que emergiu do sono reparador, com um sonho.

Levantou-se para avaliar a vida em seu redor. Os olhos perscrutaram cada palmo de terreno e perderam-se em exercícios estonteantes por entre o restolho e os arbustos. Ziguezaguearam até centrarem a atenção numa encosta pouco pronunciada. Era enigmático o que fixaram. Da terra brotavam palavras. Primeiro o “p”, de palavra, por exemplo, que trazia no seu encalce o “a”, depois o “l” e de novo o “a”. Seria pala! Não, não era. O “v” redopiou num vórtice, logo seguido de um “r” e do terceiro “a”. Junto com os malmequeres brancos e as azedas-bravas amarelas, a palavra e outras palavras erguiam-se do chão como qualquer outro rebento de planta, a empurrar os torrões de terra.

Aproximou-se temeroso e lento, curioso e célere. A imagem que a figura encarava constituía uma revelação. Que duplicou, quando pisou o cume da encosta, e cravou o olhar na vertente descendente oposta. Apareceram-lhe algarismos esvoaçantes, atraídos pelo pólen das flores campestres. O sisudo “1”, o rotundo “0”, o retorcido “8”…

Ninguém deve nem pode ser privado destes elementos ímpares, números e letras. Uns reúnem-se para indicar quantidades, outras juntam-se para atribuir sentido. Quaisquer que sejam os sinónimos: perspectiva, percepção, coerência ou propósito.

A figura de mim próprio, cujo costado já seguia na peugada desde a declinação do dia anterior, vergou-se para colher as palavras que a terra lhe dava. Como as palavras não se medem, nem mesmo aos palmos, tomava-lhes o peso e a consistência, como se faz à fruta para adivinhar a maturação. Mais difícil foi a tarefa de pegar os algarismos e números que, em múltiplas combinações, volteavam no ar irrequietos e esquivos. Que falta lhe fez aquela rede de apanhar borboletas. Se a tivesse, mais proveitosa seria a manhã

Acarretado com tal tesouro, que não se deixava ajoujar à primeira, não lhe chegava ter mão. Passou quase toda a tarde no exercício de os adestrar, criar combinações inúteis, inventar indicadores e significados improváveis. Um frenesim e um temor o tomou. Até que viu reluzir no alto de uma rocha uma língua rósea, quando ainda o sol estava a distância substantiva da linha do horizonte.

Era uma língua literalmente de fora, sem, todavia, estar desapossada de contexto. Era tão-só uma língua, como outras línguas. Uma criatura colectiva carente de palavras que, como se sabe, são o alimento das línguas vivas, a que recomendam juntar algarismos e unidades, para contar como as coisas são dizíveis.

Estava a porfiar palavras e números quando despontaram do nada uma trupe de saltimbancos de gente muito diversa e de muitas paragens. Um homem de barbas grisalhas e bojo rotundo engolia palavras em chama, uma contorcionista serpenteava pelos anéis do retorcido “8”, um faquir estendia uma cama de uns (plural de “1”), que eram no caso aos milhares, uma palhaça tinha acoplado a cada sapato imenso um z de mola, que lhe imprimia um saltitar patético.

A trupe reproduzia quer a unidade quer a diversidade que a língua desenha no nosso conhecimento. Singulares e múltiplos que se expressam num código transcontinental com palavras certeiras e números precisos. A figura, com um sorriso vasto, celebrava o dia como se fosse a primeira vez.

Orlando César

Escrito em 5 de Maio de 2020, primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa  

Somos gente de palavra(s)

Somos gente de palavra(s) e de números. Mas, no fundo, o essencial é sermos mais que números, sermos palavras, sermos verbos!

Nestes períodos que atravessamos, todos os professores foram professores de palavra(s)! Quando tudo mudou à sua volta, reinventavam-se e abraçaram novas metodologias, até então desconhecidas para muitos deles! Não foi, certamente, Ensino a distância o que foi feito, mas foi, com toda a certeza, ensino à distância. E, enquanto se discutia se o “a” deveria ou não levar acento, os professores, separados fisicamente dos seus alunos, não baixaram os braços, reinventaram-se, procuraram formação, procuraram informação e mostraram aos alunos que continuavam lá, continuando a dar-lhes apoio, mostrando que, mesmo os que não lecionam línguas, são, também eles, gente de palavra(s).

Descobriram, em pouco tempo, novas formas de comunicar. Enfrentaram as câmaras, pela primeira vez, alguns deles, e foi de mangas arregaçadas que a maioria encarou esta nova situação. Perceberam que não se poderia deixar ninguém para trás, Era preciso contactar todos os alunos, fazendo-lhes sentir que cada um deles, mesmo distante, fazia parte da Escola e que a escola teria que continuar também com ele.

Foram palavras, todos estes professores. Sobretudo, verbos. Poderíamos procurar adjetivos para os caracterizar, e sei que os há, mas, na hora de agir, fizeram, sentiram, apoiaram, descobriram, redescobriram, aprenderam, ensinaram!

E foi com palavras, escritas, faladas, transmitidas pelas tecnologias ou por folhas impressas que os alunos foram buscar às escolas, que lhes disseram que a Escola e os professores continuavam lá. Que, mesmo estando distantes, a escola teria que continuar, porque a escola não são apenas paredes, as escolas são, sobretudo, pessoas, palavras, gente, gente de palavras!

Com o ano letivo quase a terminar, já podemos hoje dizer que os professores mostraram estar à altura do desafio, por muito grande que tenha sido o desafio! E, talvez, seja esta a principal mensagem a transmitir aos alunos, que não importa onde está a Escola, não importa se temos que a fazer tudo de modo diferente, a Escola continuará lá, enquanto estiver preenchida por gente, por gente de palavra(s)!

Junho de 2020

João Vítor Torres

Sinais

Conheço-lhe os sinais. Os primeiros chegaram no dia 7 de Março, cedo ainda. A sala estava cheia de colegas e eu de medo. Não. Medo não é a palavra correcta. O medo tem qualquer coisa de racional e o pânico é irracional, uma torrente que nos atormenta sem passar pelo cérebro. Sair dali era a única coisa que ocupava todo o meu pensamento, era a doença antes da doença. Ansiedade. Há alguns anos que a conheço bem, sei que vem visitar-me e que tenho de munir-me de meios para a enfrentar. Ficamos a conhecer muito bem os sinais. O contágio estava ali em cada um dos meus iguais e eu sabia a minha saúde frágil. A ansiedade chegou dentro da sala fechada, mesmo antes da doença colectiva, antes do vírus ditar o confinamento.

No final dessa semana todos fomos todos para casa.

Há uma canção do Fausto Bordalo Dias que começa “Foi por ela…” Hoje sei que o seu verdadeiro significado nunca foi aquele que lhe dei. Mas acompanhou-me durante anos como canção de entrega, de dádiva. Penso nela sempre que faço algo pelos outros. Acho que foi por eles. Eles estavam mais perdidos do que eu e tinha um compromisso com eles.  Por eles varri a ansiedade, varri-a todos os dias em que durou o confinamento, nunca lhe cedi. Por eles. E tudo o que sentimos é instrumento útil na relação com os outros, até a vulnerabilidade. Reconheci a ansiedade quando ela me ligou em pânico e em lágrimas. Reconheci a ansiedade quando eles me pediram uma sessão síncrona para falar do modo como se estavam a sentir. Reconheci-me quando ele me disse: sempre fui uma pessoa tão activa, professora, e agora fiquei duas semanas sem conseguir reagir. Não, não foi por eles. Foi com eles que passei todo este tempo. Saber ouvir, tranquilizar, ceder, exigir, dar um passo atrás para poder avançar dois em frente. Sem eles não existimos. São os estudantes que fazem de nós professores. E nestes momentos, neste tempo, foi uma das mais belas profissões. Foi bom tê-la escolhido.

Ouvi-a chorar e não tive vontade de chorar pois não era a altura para a ter. Só depois. Talvez muito depois. Acho que mais tarde, bastante mais tarde. Não quando todos os estágios foram suspensos; apenas quando me apercebi que muitos não poderiam voltar a fazê-los; que tinham a vida suspensa, interrompida; sem poder andar para trás; nem seguir para diante. Foi quando as soluções escasseavam e todas as portas pareciam fechadas e eu nem uma janela conseguia abrir. Foi por eles que não desesperei, desesperando. Foi com eles, um a um, solução à medida de cada um. Uma já nos Açores, outros no Alentejo, outra sem conseguir aceder à Internet a não ser com o telemóvel à janela. Não sei se foi por essa altura ou mais tarde que queimei um ou dois tachos por me deixar ficar online à conversa com eles, sem me lembrar do almoço ao lume.

As palavras são sinais. É preciso que se mantenham vivas; é preciso que elas nos liguem ao outro; não que nos afastem dele. Tantas palavras ganharam ainda mais sentido: Projeto de Vida, Diferenciação Pedagógica, Plano individual de aprendizagem. Saber quem é cada um, o que quer para a sua vida, como encara o estudo, o curso, o futuro. Dar resposta a cada um sem perder a noção do conjunto, variar e diversificar considerando as balizas, os limites, o que nos une e estabelece o rumo colectivo, dentro do qual cada um tem de traçar o seu. Ainda não acabou. Ainda estamos na luta. Ainda não sei o final e se, para todos, será feliz.

Foi para todos claro que não podíamos perder a ligação com os estudantes. Certo. E quando eles ainda não eram nossos estudantes? Com os que eu já conhecia, era só não deixar que o fio se partisse, e com os outros? As duas turmas novas que nem conhecia antes? Não acreditem se vos disserem que à distância não há relação pedagógica e que apenas as dinâmicas presenciais são geradoras de afectos. Pela minha parte não esquecerei estes rostos que conheci em corpos vistos pela metade, sem sala de aula, sem cheiro, sem toque. Mas tinham sorrisos, tinham cansaço, tinham voz, tinham perguntas, eram seres humanos, eram iguais a mim no receio, na luta, no esforço.

Sinais são palavras. Tantas que ficam por dizer. Aqui e noutros lugares.

Não esquecerei nunca este segundo semestre de dois mil e vinte.

Carla Cibele Figueiredo

Somos gente de palavra(s)!

Quando a Paula mandou a mensagem no grupo, eu demorei para entender o que é que estava a acontecer (entender mesmo, assim, de verdade!). Sabíamos que já tinha chegado na Itália o tal do Corona, andávamos a brincar às cotoveladas mas daí, de repente, fechar a faculdade?! Foi muito estranho… Mas assustador mesmo foi quando o país fechou. Literalmente. O megacentro comercial fechou. A barbeariazinha ao lado de casa fechou. O ginásio onde eu fazia limpezas fechou. A florista que me rendia uns trocos a mais também fechou. Às tantas, viemos para casa. Primeiro eu e os meus 2 filhotes; um tempo depois a minha irmã e a minha sobrinha. Éramos 5 no quarto alugado. Bons tempos…

E daí? Bom, e daí que somos gente de palavra. Somos uma família honrada. A nossa mãe nos ensinou assim. Lá fomos nos safando.

Comecei a receber um monte de mensagens de setores da faculdade que eu nem sabia que existiam. Decifrar aquilo tudo foi o cabo dos trabalhos. Informação para o e-mail pessoal, mensagem para o e-mail da turma, fórum no Moodle, formação disso, formação daquilo… Juro que se não fossem os meus colegas, não faço a mais pequena ideia do que me teria acontecido. Mas a faculdade também foi fenomenal! Em duas semanas fui lá buscar um portátil antigo que deu um jeitaço porque as três crianças também estavam com aulas online. Era um sofá no meio do quarto, uma cama de cada lado e a mesinha da Coca-Cola no canto com o nosso novo computador. Ficou tudo bem. O meu mais velho e a minha sobrinha viam as aulas na TV – é sorte terem a mesma idade. O mais novo, coitadinho, ficava comigo enquanto, a minha irmã usava o computador durante o dia para o trabalho dela, e eu usava nas madrugadas para assistir as aulas gravadas e fazer os trabalhos. As aulas síncronas eu assistia no telemóvel. Foi um tempo em que aprendi muito, apesar do Wi-Fi da vizinha não aguentar tanto aparelho ao mesmo tempo, mas deu tudo certo, graças a Deus!

Foram tempos difíceis. Sei lá se era peso na consciência por não estarmos juntos ou o quê mas os professores começaram a nos encher de textos, de trabalhos, de vídeos… Tudo para o nosso bem, coitados. Aqueles é que eram gente de palavra! Eles só queriam ter a certeza de que nós tínhamos entendido o que era para fazer, que tínhamos recebido todo o conteúdo e que tínhamos aprendido. Verdade, verdadinha, os professores foram maravilhosos. Respondiam-nos as dúvidas nos fóruns, lembravam-nos das datas dos trabalhos, às vezes parecia que eu tinha os professores só para mim – até me chamavam pelo nome, vejam lá! O dia que o diretor ligou para o meu telemóvel, então… eu ia morrendo do coração!

Lembro-me que passei “à rasquinha” – só chumbei a uma disciplina. Mais que merecido. Se eu tivesse a internet dos meus colegas, se o meu novo portátil não travasse tanto, se o meu cunhado tivesse sobrevivido à Covid, eu não tivesse engravidado tão cedo, se o meu marido não tivesse ido embora quando soube da deficiência do pequeno, olha! Tenho a certeza que eu teria notas bem melhores. Mas é a vida.

Luzia Lima-Rodrigues

Também eu sou gente de palavra(s)

Também eu sou gente de palavra(s). Nascida em África, chegaram-me primeiro as “palavras contadas”, e só depois as “palavras lidas”.

Proponho-me a uma “conversa” em que as palavras do Mia Couto chamam as minhas palavras e assim vos “contar” deste tempo em que o confinamento, a lonjura dos abraços, a lonjura da família e dos amigos, a lonjura dos alunos, se constituíram como o desafio maior para todos nós.

“O que aqui vou relatar se passou em terra sossegada, dessa que recebe mais domingos que dias de semana.”
(Mia Couto , no livro “Estórias Abensonhadas”)

Os dias da semana não se distinguiam dos domingos e sucediam-se parecendo todos iguais não fora a conferência de imprensa da DGS, nas TVs. Com a atualização, em cada dia, dos nºs de novos contaminados, de doentes internados  e de mortes (felizmente, bem menos do que os piores cenários anunciavam) sabíamos que o calendário continuava a fazer avançar o dias, as semanas e os meses.

Passaram devagar os primeiros dias, num estranho estado de torpor que me dificultou a organização e a retoma de tarefas profissionais, associado a outro estranho estado de curiosidade ávida que me fazia seguir cada noticiário, cada página dos jornais (nacionais e internacionais)  fazendo adiar leituras, trabalhos, reuniões, compromissos e até telefonemas.

Ficamos ali horas trocando nadas,
simplesmente adiando o tempo.
Alongando o milagre de estarmos ali.”
(Mia Couto, no livro “O último voo do flamingo”)

Felizmente as horas foram preenchidas pela calorosa presença dos netos que tornaram os dias mais luminosos contrariando os sinais de tédio e melancolia com o pequeno milagre das suas gargalhadas e brincadeiras. Senti-me grata por podermos estar livres e disponíveis para atender o pequeno Guilherme ( 3anos e meio) e a pequenina Catarina ( 1 ano comemorado em tempo de emergência) já que isso permitiu que os seus pais pudessem continuar a trabalhar.

O milagre de estarmos ali, seguros, foi assegurado por milhares de profissionais que nunca interromperam o trabalho presencial para que o resto do país pudesse ultrapassar este período com a maior segurança possível.

Esta experiência de sermos “avós a tempo inteiro” era interpretada por nós de forma quase “bi-polar” fazendo-nos muito felizes com a hora da chegada das crianças como , igualmente, muito felizes com a hora dos pais as virem buscar.

“— Dói-te alguma coisa?
— Dói-me a vida, doutor.
— E o que fazes quando te assaltam essas dores?
— O que melhor sei fazer, excelência.
— E o que é?
— É sonhar.”
(Mia Couto, no livro “O Fio das Missangas”)

Está a ser um tempo muito exigente que nos desafia a continuar com os nossos sonhos e desejos, apenas um pouco adiados; que nos desafia a não descurarmos a relação com o mundo e com os outros (com a família, com os amigos, com os companheiros de projetos e trabalho, com os alunos). O pior que nos poderia acontecer era habituarmo-nos a estar afastados uns dos outros, num comodismo preguiçoso que elimina conflitos e dores mas que nos deixará isolados, menos humanos, por isso.

“Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. “
(Mia Couto no  livro “Mar Me Quer“)

Também acredito , como a Dona Luarmina, que ser infeliz pode dar muito trabalho e talvez procure ser feliz por preguiça. Sem ingenuidades, estou a viver este tempo com a serenidade possível, com a responsabilidade cívica de quem sabe que “não está tudo bem” e que “ não vai ficar tudo bem para todos”, com a responsabilidade de quem reconhece que o acumular das desigualdades, da exclusão e da pobreza, obrigará o país a ser solidário e generoso, e obrigará cada um de nós a ser empáticos e solidários comprometendo-nos a fazer que a cada um de nós compete.

“A escola foi para mim como um barco :
 dava-me acesso a outros mundos.”
(Mia Couto, no livro “O último voo do flamingo”)

Claro que também eu sinto saudades dos alunos, do barulho juvenil nas salas de aula e nos corredores, mas, felizmente acredito que a distância não matará o que é mais importante na minha relação com a escola e que permanece intacta; a vontade de continuar a fazer aprender navegando pelo(s) mundo(s) que nos rodeia(m). É porque “a aprendizagem não pode parar” e há muitos mundos por descobrir!!!

Ainda com Mia Couto, para terminar, quando conta na primeira pessoa que “não sei se há profissão mais nobre do que a de ensinar. E digo ensinar porque existe uma diferença sensível entre ensinar e dar aulas. O professor no sentido de mestre é aquele que dá lições. Os professores que mais me marcaram na vida foram os que me ensinaram coisas que estavam bem para além da matéria escolar.” ( Mia Couto, Aula inaugural, Escola de Comunicação e Arts- UEM. 2012)

Que saibamos estar nas suas vidas, para além da matéria escolar !!

Ariana Cosme

Gondomar, Junho de 2020

Somos gente de palavra(s)!

(Reflexões em tempos de pandemia. Abril de 2020)

Nos últimos tempos tenho vivido com a sensação de que sou personagem de um livro de ficção científica. Tudo mudou. De um momento para o outro as notícias do telejornal sobre o que se passava longe aproximaram-se, transbordaram por todo o lado e o mundo parou.

Parámos todos por causa de um perigo que não se vê mas que nos atinge na sua invisibilidade e imprevisibilidade.

Começaram por encerrar as escolas. E quando encerram as escolas ficamos a sentir mais perto a realidade física do perigo.

Tem que haver distanciamento físico entre as pessoas. É proibido dar abraços porque o perigo invisível que passou a fazer parte da nossa vida pode estar em nós ou nas pessoas de que mais gostamos.

Estamos quase todos e todas fechados em casa. Chama-se estar em estado de “confinamento” para evitar riscos na fase de “mitigação” da pandemia: novos vocábulos que passaram a fazer parte dos nossos dias.

Passámos a trabalhar em casa. As fronteiras entre o que é publico e privado passaram a ser definidas pelo ecrã do computador. O espaço e o tempo passaram a ter novos significados.

Nós, professores e professoras, continuámos a trabalhar com estudantes e colegas a partir de casa, em teletrabalho e descobrimos que dominamos competências que nem sabíamos que tínhamos! Lemos, ensinamos, escrevemos.

Escrever sobre este momento é quase uma obrigação para que fique registado para memória futura o que estamos a viver.

Não sabemos muito bem como e quando vai ser o retomar da normalidade. Nem sei mesmo se sei definir normalidade porque nunca pensei que um dia se tornasse normal estar tanto tempo fechada em casa a trabalhar.

Todos e todas tomámos mais consciência da fragilidade das nossas vidas. Passei a dar valor a pequenas coisas, gestos do dia-a-dia, que tinha como adquiridos. Tenho muitas saudades de viajar, de estar ao pé do mar. Mas sei que sou privilegiada em relação à maioria das pessoas: a pobreza aumentou. As desigualdades socioeconómicas vão-se agravar profundamente. A economia sem a educação e a ciência não é indutora de um desenvolvimento socioeconómico sustentado.

A imprevisibilidade vai continuar durante muito tempo. Acredito que vamos sair mais fortes. Tenho orgulho no meu país pela forma como geriu e gere esta crise. Tenho orgulho nos meus colegas e nas minhas colegas de profissão.

A forma de conceber a escola passou a ser diferente para docentes, estudantes, famílias. De certa maneira acho que se desenvolveu um melhor conhecimento e compreensão dos papéis que cada um desempenha e da sua inevitável complementaridade.

A necessidade de flexibilizar a formação e a educação é uma aprendizagem que ainda vamos ter que continuar a fazer. Mas ficou evidente que as instituições educativas e os educadores e educadoras, de todos os níveis de ensino, na sua generalidade deram provas de saber responder de forma autónoma e flexível à diversidade e complexidade das situações.  

Aprendemos e estamos a aprender muitas coisas. Mas de todas estas aprendizagens penso que o mais importante é a maior valorização das interações sociais, da necessidade de estarmos juntos e de agir conjuntamente, o valor das palavras faladas e escritas quando não podemos estar perto.

O computador tem sido um fiel recurso, quase um amigo. Mas as palavras são nossas. O contacto humano é a nossa maior riqueza. As palavras têm cheiros, sabores, transmitem sensações. As palavras precisam de gestos, de trocas de olhares, para ganharem vida.

E nós professores e professoras somos gente de palavra(s).

Maria João Cardona

Palavras no tempo suspenso

Passaram 9 semanas e 3 dias.

|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||| dias.

Passaram também todos os prazos para escrever este texto. Não vai ficar nada bem. Nada vai ficar bem. Só tenho palavras tristes, como esta semana de maio que chorou todos os dias.

Primeiro foi preciso convencer-me de que, mais do que garantir a qualidade do ensino, era serviço público ajudar a manter alguma forma de ensino, ajudar as estudantes a viver um tempo improvável durante algumas semanas. Parecia impossível que fosse mais que isso. Depois, ainda não tínhamos recomeçado as aulas e já estávamos a receber mensagens a reclamar do novo estilo de ensino. Uma das mensagens assustou-me mesmo. As estudantes perguntavam algo como “se somos deixadas sozinhas com textos para ler, como é que aprendemos?”

Cá por casa, os meus filhos, um no 1.º ano, outro no 4º, ecoavam as mesmas queixas de um ensino superior a tatear caminhos entre um ensino a distância e um ensino remoto de emergência. E, à hora de jantar, de formas diferentes, ouvia “não estou a aprender, no meu curso não dá”, “só fazemos trabalhos para avaliação, não há aprendizagem”.

Em poucas semanas, como nunca pensei que fosse possível, questões com centenas de anos na história da Educação ganharam espaço na pedagogia do ensino superior: o valor da autonomia nas aprendizagens, uma avaliação que sirva mais para apoiar percursos de aprendizagem do que classificar, o sentido da aprendizagem colaborativa. Porém, não há criatividade que valha à substituição dos estágios pedagógicos (em salas de creche, de jardim-de-infância, do básico e do secundário), dos estágios em instituições de terceira idade, dos estágios clínicos (em blocos operatórios, em centros de saúde), dos ensaios de peças de teatro, da preparação de concertos, dos desportos de equipa… E não conseguimos reinventar a relação pedagógica sem contacto humano, sem sociabilização com os cinco sentidos.

Lembram-se do melhor tempo da vossa vida? O meu foi o tempo da faculdade. Partilhar casa, ter o tempo todo do mundo só para ler e estudar, discutir todos os temas imagináveis com os colegas. Estar todos os dias com as amigas da faculdade. Combinar tudo em conjunto, até as férias. Ter todos os sonhos e ideais por viver. A vida por escrever.

Imaginem perder tempo desse, do melhor das nossas vidas, de pijama, no quarto, em Zoom, sem a certeza de que o verão vai chegar e salvar‑nos de um tempo em suspenso.

Não sei que palavras de ânimo devia ser capaz de dar aos nossos estudantes. São eles que me fazem sorrir, com conversas a recordar os nomes das senhoras que servem a comida nas diferentes cantinas e a qualidade da comida vegetariana entre instituições. E com balanços de turma: “excesso de trabalho, mas tem funcionado globalmente bem”, “reforçou a entreajuda e estreitamento de relações nos trabalhos de grupo” . O insólito de uns cotas a tentarem fazer testes a distância, com vídeo-controlo, supostamente imunes à colaboração em rede, vai dar para umas boas anedotas, com gargalhadas que se projetam no tempo futuro.

Ana Luísa Costa

17 de maio de 2020

Gente de Palavra.

Agora que a palavra já não empurra o ar,
agora que aparece onde chega sem saber de onde sai,
agora que tudo é provisório, efémero e virtual
agora é tempo de saber
quem é gente de palavra.

Não as levam o vento, as palavras.
Todas guardamos, mesmo as não ditas.
São as luzes que balizam o que sabemos e sentimos
e ficam connosco todo o dia e toda noite.
É que somos gente de palavra.

Por isso, quando damos a palavra,
damos a alma que nos anima,
damos os deuses que nos protegem,
damos a palavra como sangue ou seiva.
Somos gente de palavra.

Umas que damos, são de serena quietude,
outras trazem impulso e audácia,
outras, ainda, só enchem ocos.
Nem todas valem o mesmo, mesmo assim…
nós somos gente de palavra.

Gente das palavras todas:
das frias e quentes, das vibrantes e baças,
das escuras e luminosas, das rasas e majestosas,
das que que fazem crescer e fazem mingar.
Gente de todas as palavras.

Mas as que mais gostamos são as que fazem pontes,
feitas de cimento para galgar abismos,
para cruzar rios e desfiladeiros inexpugnáveis.
Palavras por onde caminha onde antes se parava.
Por isso, somos gente de palavra.

Mesmo vindas de longe as palavras vibram,
ouvem-se no seu silêncio à chegada
e entusiasmam com o seu silêncio à partida.
E sonham-se livres para a alta desta doença.
Somos gente de palavras.

David Rodrigues

25.4.2020

Somos gente de palavra(s)!

O despertar do telemóvel, toca. Levanto-me apressada, como me é habitual, … será que já estou atrasada para as aulas, interrogo-me. Segue outra interrogação: será que consigo fazer tudo o que tenho de fazer e, ainda, ter tempo de beber o café, no sítio habitual, e percorrer os poucos quilómetros que me distanciam da Escola? Levanto a persiana, a nova realidade “cai” sobre mim! A inexistente fila de carros e os poucos transeuntes, alguns de máscaras, recordam-me em que situação estou, ou melhor, em que todos e todas estamos!

Já não tenho de percorrer o caminho até à Escola, o café passa a ser em casa, e quanto às aulas, ainda, tenho tempo… agora, são a partir de minha casa, com recurso à tecnologia, ou seja, com recurso a diversas plataformas – Zoom, Teams, Moodle e outras que tais!!! E, assim, passo a ver os meus (e as minhas) estudantes através do écran do computador. Triste realidade que eclodiu, de nome COVID-19, e que nos exigiu uma nova organização!  Uma organização onde os docentes se veem coartados da possibilidade de interagir, em presença, com os seus estudantes e onde a relação professor aluno possa fluir em parceria com o processo de ensino e aprendizagem. Uma organização onde a Liberdade, no País democrático onde vivemos, foi restringida.

Ao afirmar que a Liberdade foi restringida, de modo algum quero, aqui, lembrar um dos marcos da História do nosso Sistema Educativo, nomeadamente o ocorrido durante o Estado Novo, onde a trilogia Deus, Pátria, Família marcava uma política educativa cuja inculcação ideológica e doutrinamento moral e religioso imperavam, alicerçadas na total restrição de Liberdade individual e coletiva. Logo em seguida, lembro o dia histórico do 25 de abril de 1974, onde uma nova realidade originou uma nova reorganização do país e, em particular, do Sistema Educativo, onde se pretendeu refletir os ideais democráticos, garantindo a todos e todas condições de acesso, de participação e sucesso, possibilitando, a cada um, o seu desenvolvimento pessoal e social. O Sistema Educativo passou a ser “gente”, onde a Escola Pública se distinguiu e distingue.

Desde que é “gente” têm sido várias as vicissitudes por onde tem passado o nosso Sistema Educativo.  No presente está, de novo, a vivenciar mais uma.

Centrando-me, agora, na Formação Inicial de Professores, por onde “gravito”, a um pouco mais de 30 anos. Várias têm sido as alterações, também, neste campo. Em especial, as provenientes da adesão de Portugal ao emanado pela Declaração de Bolonha. Temos sabido adequá-las e enquadrá-las no que defendemos e preconizamos, onde a procura de contribuir para uma formação de agentes educativos defensores de uma pedagogia crítica, tem sido um dos pilares. Todavia, nova vicissitude, nova alteração nos foi imposta! Desta feita, por um vírus, até ao momento, desconhecido e sem tratamento ou vacina conhecidos.

Soubemos, em muito pouco tempo, dar resposta. Primamos por existir, por tentar sempre fazer melhor, apesar das condições com que nos deparamos.  Todavia, não deixamos de “gritar”, não é esta a Escola que queremos. Queremos uma Escola onde a presença, o contacto, as interações, e como já referido, a relação professor aluno flua, em parceria com o processo de ensino e aprendizagem.  Não sabemos quando tal nos será possível, sabemos sim, que vamos continuar o nosso caminho na Educação, pois somos gente de palavra(s)! 

Ana Pires Sequeira   

Maio de 2020 – “desabafos” de uma professora em tempos de pandemia

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