Pois somos. Somos gente de palavra(s) porque elas nos foram dadas, misturadas com afetos e crenças, por aqueles que de nós cuidaram e nos construíram como pessoas. Haveremos sempre de agradecer o som do amor das palavras e a sua incitação para a vida, nos dias remotos da infância. As palavras são, desde sempre, ligação, compromisso, reconhecimento, lealdade e promessa.
Somos gente de palavra(s) e ação, que a palavra se quer em movimento, pronta para alcançar uma missão e um propósito. Em todos os tempos e em todo o mundo, as palavras cimentaram a vida, procuraram-lhe o sentido, apalparam o terreno e a sua fertilidade, mesmo na ausência de água ou adubo generoso. E soubemos inventar outras regas, condição para sementeiras necessárias. E fizemos o pão para a mesa e a festa para o coração e o futuro. E acarinhámos um dicionário comum, com palavras corajosas: liberdade, direitos, democracia, igualdade. E pusemo-las em lugar seguro, prontas a serem usadas e sobretudo, concretizadas.
E agora? Atordoados, confinados à geografia da nossa casa, face a um inimigo sem rosto, paralisámos, num primeiro momento, interrogando o presente. Durou pouco esta letargia, de gente com medo. Cedo nos organizámos, reinventando outras formas e condições, na escola, em casa, na cultura, nos serviços. Apropriámo-nos das tecnologias, do longe fizemos perto, aprendemos, inovámos e lutámos contra o confinamento. E inundámos os dias de écrans e palavras, batemos palmas para os da linha da frente, cantámos o Grândola Vila Morena à janela, espantámo-nos com o poder de um clic à distância, inebriados num mundo (quase) maravilhoso. Talvez nos tenhamos até excedido num upgrade de redes de comunicação, funcionais, mas incapazes de substituir o calor de um abraço, o toque da pele morna, o riso da presença, em corpo inteiro.
E porque somos gente de palavra(s) comprometemo-nos connosco e com os outros, cumprindo com sentido cívico os nossos deveres. Aprendemos o sentido de tanta coisa que dávamos como adquirido: a importância da escola como espaço de equidade para muitos, os mais pobres e desfavorecidos. Vimos como tantas crianças permanecem invisíveis e desprovidas dos seus direitos, condição habitualmente ignorada. Vimos a imensidão dos lares e a quantidade dos mais velhos que neles passam os dias, sem fim à vista. Sentimos a saudade dos nossos, os de casa e amigos, e tomámos o peso à importância dos afetos, na nossa vida. Inquerimo-nos sobre o essencial. Admirámo-nos com a quantidade de cientistas e do seu esforço para nos elucidar e resolver o futuro, aqui e em cooperação com outros países. Apreciámos a implicação de grupos da sociedade civil, empresas, grupos de voluntários, que num esforço de fazer face ao futuro, começaram a preparar outro presente. E de como na alta costura se passou a fazer máscaras. E como aprendemos a fazer desinfetante. E viseiras. E zaragatoas. E ventiladores.
Somos gente de palavras(s). E de convicção e decisão, sem falsas esperanças ou dogmas breves. Não vai ficar tudo bem, mas pode ficar tudo muito melhor, se as palavras adotadas forem mais que um exercício de retórica. Forem ação, compromisso e luta pelo presente e o futuro. No respeito por cada um de nós e por todos. Como cidadãos de uma comunidade e do mundo, neste novo tempo de pandemia, que está seguramente para continuar. Vai depender de nós não lhe dar tréguas. E como sempre, ninguém poderá ficar para trás.
Manuela Matos – 4 de maio 2020